sábado, dezembro 02, 2006

O Farmacêutico

Fui numa farmácia procurar por um remédio. O farmacêutico me pediu que dissesse os sintomas do meu mal. "Consciência pesada, fraqueza de espírito e cansaço da alma" eu disse. "Talvez um analgésico de força de vontade resolvesse" complementei. Ele me respondeu dizendo para eu procurar uma igreja.

Comecei a minha busca pelas igrejas. Em uma me ofereceram a salvação e um lugar reservado no céu, em troca de uma contribuição mensal em dinheiro, mas não achei alguém que reconfortasse uma alma. Em outra, me mostraram um catálogo de santos, porque o seu Deus era importante demais para cuidar de alguém como eu. Tentei esses santos, achei um para as causas urgentes, outro para arranjar casamentos e até um que cuida do tempo, mas nenhum que engrandescesse um espírito fraco. Em outra, me disseram que eu era um infiel e que não merecia sua salvação.

Com o fracasso da minha busca, resolvi voltar ao farmacêutico. "Achou o que procurava?" perguntou-me ele. "Não" lhe respondi. "O senhor poderia tentar um livro de auto-ajuda" disse-me ele.

Procurei nas bibliotecas os livros dos homens mais sábios que existem. Eles diziam para sempre termos esperança, e que tudo ía dar certo. Uma luz surgia nas trevas do meu coração, mas era muito fraca e logo se apagava.

Voltei ao farmacêutico, ainda amargurado com a vida. "Senhor, acabou de chegar um remédio que talvez te ajude" ele disse, mostrando-me uma caixinha. Ela vinha com os seguintes dizeres: Amigo, sem contra-indicações ou efeitos colaterais. Olhei para a bula deste remédio, que estava assim escrita:

"Olá, meu nome é João. Sou farmacêutico. Não sou rico, tenho vários defeitos, mas estou aqui para ouví-lo. Eu também não garanto a cura de teus males, mas te garanto que estarei sempre ao teu dispor para te ajudar."

Minha alma continua cansada, meu espírito fraco, porém agora eu tenho alguém que me incentiva, que me ajuda a levantar quando caio e que ouve os meus problemas sem se incomodar.


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Escrevi este texto a uns anos atrás. Dedico ele aos meus amigos, fortificantes, isotônicos, vitaminantes que me agüentam todo dia, e que me dão esperanças de seguir adiante.
Também peço desculpas, se de alguma maneira este amigo aqui deixou um gosto amargo aos que um dia dele precisaram.